domingo, 14 de setembro de 2008

Inteiro dentro de mim


Essas pétalas que te ofereço

com um leve aroma de primavera

saíram de entre as nuvens douradas

como aquela manhã de outra era.

Essa música que tu ouves agora

são acordes de uma lira às avessas

tangida num beijo inquieto

para que tu te estremeças.

Ouça! O vento é o adversário do tempo

Misto de água e paixão

segue livre entre fronteiras

te apruma ou te desalinha mas,

não silencia a cadência da tua pulsação.

Tu vives e eu também te reconheço:

no meu passo confiante pelo mundo,

na minha risada de pura alegria,

entre as linhas de uma poesia

e no latejar da minha emoção.

Dôra Leal

Insistência


A minha praia, se existe,
talvez fique adiante do meu deserto.
E uso todo meu fôlego,
para nadar nessa areia.
Minha pele está tatuada de Sol.
Doem-me as feridas, as novas e as antigas.
Sangram minhas cicatrizes.
Mas, pelo ar, pelo mar,
pelas montanhas e
até pelo deserto
- vivo porque existo -
E existir é latejar ferida.
Existir, é insistir no prisma
que o amanhã é amanhã mesmo.
E não o agora, que sei ser...

A ti


A ti sou o amor
Aquele que te conforta,
atrai
e adoça.
A ti sou a luz
Aquela que te guia,
indica
e ilumina.
A ti sou a força
Aquela que te enobrece,
movimenta
e enaltece.
Faça valer o meu sentimento
e me ame livremente.

Cúmplices


Ele:
Reclamou da vida.
Revoltou-se com os raios.
Disse que eram descargas de ódios.
Sujou o tapete.
Jogou meias sob a cama.
Assustou o cão.
Por dias e dias, sentou-se na mesma cadeira.
Não abriu a janela.
Estalou os nós dos dedos até a exaustão.
Ela:
Conversava com os pirilampos.
Não fechava uma porta.
Perfumava-se em excesso.
Flutuava para não pisotear formigas.
De repente, descobriu-o.
Ofegante, ofereceu-lhe um trovão.
Ele fez que não com a cabeça.
Tranquilamente, ela fechou a chuva.
Eles:
Alimentam-se, juntos, da solidão.

O Segredo da Borboleta


Era delicada e suave em seu vôo.
Buscava a essência in natura.
E em meio às flores
enamorou-se do cerne.
E alçou o infinito.
Diferentemente das outras,
tatuou o amor nas pétalas.
E a flor, extasiada,
perfumou a eternidade.

Enigma


Enquanto o vento canta lá fora, mostrando que tem ritmo e pulmão bons demais, descobri que depois de uma semana, o silêncio veio e se acomodou no sofá da sala.

Completamente sem inspiração poética, ando as voltas com a realidade.
Algum sorriso seria necessário para que os olhos vissem que nem tudo é amarelo. Muitas vezes cores demais também enjoam. Mas queria estar vomitando de tanto enjoar. Queria enjoar de ouvir barulho do mar, canto de pássaros e menos discussões vizinhas.
Mas, não tem mar, nem ouço pássaros e as discussões vizinhas, quer saber? Enchem minhas medidas.
Por acaso, existiria algum lugar onde as pessoas só discutissem por fax?
Vou dizer, seria um alívio, porque ouvir brigas diárias, ininterruptas, de segunda a segunda, não dá vontade de gritar? Mas, não grito. Um tom acima da minha voz me deixa rouca. Ora, ora, também não queria ser surda, o que seria uma solução.

E pensando em solução, a música, no momento, diz:
"O que será que me dá/que me bole por dentro/será que me dá/que brota à flor da pele/ será que me dá/..."

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Registro


Sentava nos pensamentos procurando registros
Quando, onde, por quê?
A cabeça no ritmo de quem assiste a uma partida de tênis
De um lado a outro nada se via
Mas havia o que ver
Apenas os registros estavam empilhados,
misturados, empoeirados
de uma forma que os acessos eram tediosos.
Quanta desordem à esquerda!
Quanta sujeira à direita!
Pálpebras pesadas nem percebiam
que o centro era a chave
Falta de mira, talvez.
De repente veio a dor
Sangrava o mundo à sua volta
Lenços, despedidas, porto, solidão.
Sempre do mesmo jeito
A maré que subia
A pedra que era engolida
A fonte que se contaminou
E o arrepio eriçou os pelos
trincando a pele que era um esboço
no arquivo que nunca morreu.
Sentada nos pensamentos.
Apenas o registro de quem não viveu...

d'Água


minha roupagem é como nascente
brota de um solo imaginário
rompe barreiras e conceitos
e deságua na correnteza

os caminhos por onde ela passa
contém flores, pedras, sementes
a roupagem então se desgasta,
mas nunca perde a essência.

ela não cobre a nudez da alma
nem submerge os sentimentos
não é tátil, não é visível, é só fantasia
e no entanto, enfrenta qualquer tormenta.

não é difícil imaginá-la
não segue modismos, nem é perene
cristaliza-se ao frio intenso
e fervilha quando está quente

minha roupagem é translúcida
com nuances de pureza e indecência
no entanto, é toda trançada
ao pudor e a decência.

ao escorrer em minhas faces
em lágrimas emotivas
desenha letrinhas na pele
desejando virar poesia.

é uma roupagem sem reino
sem súditos, sem pretensão
é d'água, é veio, é nascente
é a minha tradução.

Imprevisível?


Tum-tum-tum
Desfazem paredes
Criam portas
Descolam cerâmicas
Suam
Proseiam
Radinho na orelha em outro ritmo
Cimento, argamassa
Cadê o prato?
Não tem água?
A quentinha já chegou?
Ai, que quero dormir
Até
as 8, até as 9, até as 10
São 7hs
Nada de café
Nada de cozinha
Tudo de poeira
Cof-cof-cof
Nem ar tem mais.
Mas no caminho da roça
tem notícias.
É só varrer
e ler o País: corrupção, bandidagem
falta de solução.
Melhor não varrer.
Deixa que a poeira cubra
assim não se vê a pizza
nem guerrilhas, nem
promessas vãs.
Sem solução.
Caminho da roça
Pra lá, pra cá
Sentar onde?
Cof! Tum! Cof! Tum!
Toc-toc-toc
Tem campainha não?
Nem interfone?
Maravilha.
Sem comunicação,
Varre o jornal
E senta no chão
Notícia do dia anterior
(ou seria notícia de amanhã?)
Congresso de pizza, corrupção,
Guerrilhas, promessas vãs.
Continua sem solução.
Ei! Esqueceram?
Poeira aqui!!!!
Cof! Cof! Cof!
Socorro!!!!!!!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Notícias


Pela rádio das alterosas, entre montanhas verdes,
cheias de moscas esquisitas, vou noticiar-me (tanta audácia!).
Hoje eu fui mais de mil. Mil serviços não remunerados.
Então, não aposentarei tão cedo.
Não há nada de novo. Apenas a mesmice de sempre.
Aqui chove de hora marcada.
Eu durmo sem notificação.
Se fechar os olhos, até mesmo de frente ao micro,
caio em sono profundo.
Também venta de hora marcada.
Geralmente antes das chuvas.
Meus cabelos continuam os mesmos.
Finos, lisos demais, sem graça alguma.
Minhas gargalhadas não seguem horário.
Nenhum horário.
Até dormindo eu gargalho...
Ora veja, devo sonhar maravilhosamente bem!
Tenho feito todos os exercícios físicos que me recomendaram.
Faço-os mentalmente e me canso tanto que penso em parar.
Ora, eu lhe falei das flores que desabrocharam em meio às chuvas?
Pois é. Estão tão úmidas que talvez não agüentem nem o orvalho.
Vão melar...
Ah! Sabe o que eu descobri?
Descobri que sou insaciável.
É uma fome insuportável de tudo.
Do saber ao não saber.
Isto é, do que sei e do que não sei.
E como ainda tudo não sei,
talvez amanhã, quem sabe ?
Amanhã eu saberei.
E viva, por isto, a esperança...

Caixa de Pandora


Somos alguns.
E muitos, também são.
Eu não pertenço.
Vós sabeis.
Eles, sim. Mas, negam.
Somos a liberdade.
Alguns não, mas tentam.
Vós praticais.
Eu não omito.
Algumas vezes, permito.
Vós aprisionais.
Eles flutuam.
E os ais e os uis, ecoam
nas margens das linhas
que tortas, desenham
cosmos sob canais.
Alguns são somente um. Um único. Capa e contracapa.
Nesse confuso íntimo, pessoas vivem.
Arriscam-se abrindo a caixa.
E a Pandora mostra os dentes
ao triturar o que é demais.

Sobre Tudo


Vestia-se bem.
Algumas vezes ensolarado, aliás, muitas vezes...
Outras, sombrio.
Eu admirava a forma como aquele ser conseguia manter o olhar sempre infantil.
Como se o mundo fosse um atrativo jogo.
Pedras superpostas, águas submersas, cata-vento girando.
Cada caminhar significava um objetivo.
Sempre um objetivo.
E muitas vezes nem sapatos usava.
Para que os pés não deixassem rastros, usava asas.
Ágeis, coloridas, emplumadas.
Pés nus, braços abertos, mãos em defesa.
Do que se defendia? Era um mistério.
Um ser insaciável e sedento.
Secava todas as fontes.
Embebedava-se das estações.
Encharcava-se de emoções alheias.
Aprisionava o Sol nos olhos, no ventre, no coração.
Alimentava-se de tantos outros sóis.
Precisava disto.
Necessitava comer outra carne e beber do próprio sangue até a última gota.
Vampírica opção!
Não adiantou muito.
Sobre tudo, lá no canto, seu sobretudo tornou-se inútil.
Ficou enorme para aquele ser tão pequeno.
E o ser sabia disto.
Pendurou-o como o troféu da sobrevida.
E usou venda nos olhos para que o sobretudo, sobre tudo, não lhe desse um amargo rascante na boca a cada vez que o olhasse.
O ser passou. Tudo passa.
E o troféu, empoeirado, espera pelo ser primeiro, aquele que sobre tudo, encontrará a si mesmo.

Torta Torta



Vou olear a porta
Corta
No olhar a rota
Torta
Passo o óleo na rota
Torta
Na porta corto o olhar
Cota
Junto à rima na trilha
Tropeço
Na cota conto expresso
Sede
Café com leite aquece
Cedo
Tranco a tranca da porta
Anoitece
Acordo o olhar no tempo
Tento
A vida impressa na tela
Óleo
Olhar vergando implora
Abro a porta
Range a trinca
Rumo à rima
Torta torta - alimento
Alma rente - sente
Dilui
Óleo quente
Prensa mente
Bato a porta
Rumo à rua.
Rua torta esconde a porta.

Comigo mesma



Esquadrilhei a literatura
romântica e realista
sorvendo dramas, tragédias e poesias.
Fiz o caminho oposto
de viés, de retaguarda,
atrás dos vales, sobre pontes e
em longos precipícios.
Da semente à colheita
contei luas, marés,
pegadas e areias.
Nos desertos de ventos frios
e silêncios mutantes,
saciei minha sede
em cântaros elitizados.
Quanta incógnita!
Quanto questionamento!
As palavras eram opacas
e os tons adjetivos.
Eu era o enigma.
Desfiz-me, então,
em dunas baixas
e corredeiras espumantes.
A sabedoria não traz essa
felicidade publicada nos boletins.
É preciso mais que um salto mortal.
E um olhar atento
que acompanhe o sangue no fio da navalha.
A ideologia é francesa, mon amour.
Mas, o que sei do amor,
vem somente do meu eu tatuado, codificado, impresso.
O meu eu que crê, compartilha e persiste.
Nada há, entre a emoção e a razão,
que impeça a palavra de ser o reflexo da alma.
Sendo assim, meus escritos
são roupagens do meu avesso inusitado.

Admiração



Se eu posso olhar nos seus olhos
Sem perder meu equilíbrio,
Sem esconder o meu sorriso,
Sem ofuscar o seu brilho e
Sem criticar a sua personalidade,
Significa que admiro você.
Antes do sentimento amor
Existe o sentimento admiração.
Devemos cuidar para que não haja quebra.
Porque se houver,
Muitos outros sentimentos deixam de existir.
O respeito, o diálogo e principalmente, o amor conquistado.
Somos diferentes e sempre seremos diferentes.
Mas é nessa diferença que nos admiramos.
Façamos um pacto:
Cuidar da admiração.
Respeitar as diferenças.
Preservar o respeito sob qualquer circunstância.
E façamos outro pacto:
Ousar!
- Eu, Pessoa, ouso amar você, Criatura!
- Eu, Criatura, ouso amar você, Pessoa!
- E nessa ousadia tão cúmplice, tão plena, tão verdadeira,
ousaremos ser felizes!
- O amor é divino!
- Abençoados somos nós, que o temos!

quinta-feira, 12 de junho de 2008

De uma Pessoa à Outra


Alguns sentimentos são marginais.
Montam-nos e nos desmontam sem autorização.
Criam conceitos e os desfazem.
Antítese do amor e ódio.
Mascam nossas verdades,
transportam-nos para um labirinto
e lá nos esquecem.
A felicidade serve como elucidação.
O que é ser feliz?
Seria ter o tátil nos olhos?
Ou, quem sabe, ter audição nos lábios?
Existem tantas almas cegas.
Tantas bocas que nada dizem...
E, no entanto, olhos imploram.
Muitos olhos imploram.
Onde ficam nossos sentimentos puros?
Ficam enclausurados pelos sentimentos marginais.
Tornamo-nos reféns deles.
Somos a mentira insana.
A verdade capenga.
A ilusão falsa.
Marginalizamo-nos a cada golpe certeiro.
Tornamo-nos defeituosos de sentimentos.
Não gostaria de rir até as lágrimas para voltar
a ter fé no próximo?
Eu gostaria. Sei que também gostaria.
Mas, lá, onde o próximo se corrompeu,
também o fez sádico.
Não há risada suficiente que o retorne à pureza.
Não há mais pureza.
Nem minha, nem sua, nem de ninguém.
De minha pessoa para sua pessoa:
- O que fizemos de nossos sentimentos?
ou
- O que fizeram aos nossos sentimentos?

Pela Borda da Taça



Anoitece.
O outono inverna.
As estrelas sentem frio.

Ruas cansadas
De passos exaustos.
Portas abrem com ruídos.

Chinelos arrastam.
Mãos fadigadas.
Corpos buscando abrigo.

Anoitece.
Lá, onde o agito perdura,
Bocas sorriem de tudo.

Embalada pela balada
Sonho sonhos vagabundos.
Escorre-me pelos lábios

Vinho sabor mundo...
Principia junho.
Na garganta, sem lamento,

Canto a canção do vento.

Pelos Olhos Meus





Nesse dia não choveu.
Não fez calor.
Apesar da estação se denominar verão.
E de todos os sorrisos serem praianos e ensolarados.
Não havia um vento sequer.
As folhas de todas as plantas estavam imóveis.
Atentas.
Nesse dia o Sol não sumiu no horário de costume.
E no horário de costume a Lua surgiu.
E bendisse o dia tão atípico.
E reverenciou toda estrela que reluzia sem por que.
A meia noite o mar adormeceu.
E sonhou todos os sonhos que ninguém ousou sonhar.
Embalado em suas águas pelo Sol e pela Lua,
num solstício inigualável pela ousadia,
o mar amou além das profundezas.
E arrebentou suas ondas suavemente
até despertar, prateado e reluzente,
nas lágrimas que escorriam dos olhos meus.

Ela e Eu


Ela e eu. Ambas caladas.
Encaramo-nos como se o estranhamento fosse necessário.
Mas, não era. E ela sabia.
E, no entanto, apesar das minhas tentativas de aproximação,
ela continuava branca, alinhada, fazendo-se de difícil.
Passei a ignorá-la.
Fiz uma busca, minuciosa, em minha estante.
Qualquer livro serviria para tirar-me o desejo de tê-la sob controle.
Optei pela Gramática. Não me canso de querer aprender.
Os quês, os porquês, os tais, os quantos. Ora, nossa língua é fascinante.
Mas, apesar de só ouvir o som das folhas que folheava, de tempo em tempo, arriscava um olhar em sua direção.
Será que me diria alguma palavra?
De repente, resolvi avançar.
Juntei-a em minhas mãos e dei-lhe uma bela amassada.
Foi o suficiente. A folha de papel virou uma bola.
E, apesar de,
acolheu-me.
Deixou que eu lhe rabiscasse o amor, permitiu-se a interinidade.
Timidamente, ressurge como inspiração.
Amassada, desalinhada. Mas, pura.
Já era hora. Bem-vinda seja!

terça-feira, 8 de abril de 2008

Casulo

Estou recém acordada.
Até quando?
Não sei.
Não sei de mais nada.
O despertar é algo que não explicamos.
E muitas vezes, sem aviso, ele acontece.
O inconsciente precisa realmente de estudos.
Sei que estudam. Sei que chegam a algumas conclusões.
Algumas, não todas.
Mas aonde vou me segurar enquanto concluem?
Sabia que as paredes não só escutam, como também se inclinam para ouvir melhor?
As minhas estão assim. Já quase como arcos.
Daqui uns dias poderei dizer que minha casa é um iglu.
Ou uma abóbada.
Estarei dentro de uma redoma. Preferiria uma redondilha.
Seria mais poético.
Estou sempre tentando deixá-la à vontade. A parede, é claro.
Dou-lhe presentes. Telas singelas. A seus pés deposito vasos floridos.
Retiro digitais que não lhe pertencem.
E ela ouve! Mas não fala! Queria que ela falasse...
Quando fica ereta, deixando de inclinar-se, sei que está em fase de recolhimento.
Ofereço meu apoio. Não jogo luz em cima.
Ela sofre de estresse tijolar. E como sofre!
Nessa fase, brindo-a com uma Sinfonia de Beethoven.
Fica calma, fica zen. Mas daí, quem pira sou eu.
Acontece uma fissura na minha homeostasia.
Sinto-me num imenso palco, repleto de olhos desconhecidos
buscando através da música, o sentido do viver.
Ah! que a insanidade me revela.
Sou eco, sou ruído, sou qualquer jugular.
E palpito, escorro, diluo-me.
Despertar dói.
Com um olhar de esguelha, fito-a.
E de onde estou, sem me aproximar, sussurro-lhe um carinho.
E ela fecha-se como abóbada somente para me escutar.
Não é lindo?

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Lenda

Fui além da lenda das montanhas

onde habitam as águias esfomeadas

Plantei a semente no úmido solo

e esperei por chuvas abençoadas

Além, muito além do entendimento,

abrasei raízes entre as rondas

e entoei melodias afinadas.

Beijei a boca da noite em suspiros

E em suspiros mordi o dia que raiava.

Gestei por milênios o destino

até vê-lo sucumbir por entre fráguas.

Fiz-me lenda impoluta e eterna

porque amei o amor como quimera

até fazê-lo mito em minhas eras.

À Flor da Pele

Vou conter meus arroubos.
Necessito flutuar no vácuo existente em mim
Esgotei-me buscando fórmulas. Não existem.
A química surge por si. Vem e delata a fragilidade.
Esmaga qualquer simbolismo. Faz-me vilã, faz-me vítima.
Uma pedinte quase sem fim.
Em vão persigo anseios. São como plumas, levitam ao sabor do vento.
Ou então grudam na pele. Ferem, sangram, partem-me ao meio.
Cravam as unhas. Tiram-me o fôlego.
Fazem-me fantoche. E nada.
Absorvem minha energia, meu eu lírico, minha fantasia. E nada.
À flor da pele, nervos expostos, mastigo a ira com chocolate.
Mas a alma não se arrefece. Incendeia a equação da genealogia.
No meu vácuo, o fogo crepita. Labaredas espalham meus instintos.
À flor da pele, sou chama. Mistura onírica. Desisto.
Não mais me contenho.
Bandeira hasteada, sigo o meu norte.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Gestalt


Meu soneto de amor ainda vagueia

nas intermináveis noites solitárias.

Não incomoda o sono do inocente

Não barulha sequer a madrugada.

Fica preso na garganta como um grito

E explode em arrepios imaginários.

Está sempre imerso em carícias doces

Em olhar atento, em segredos compartilhados.

Ele possui uma verdade nunca confessa

nem em cantigas assobiadas,

nem em linhas sempre pontilhadas.

Meu soneto de amor não é soturno

Possui entremeios, cheiros, cumplicidades.

E libera-se da minha mente sem nenhum ruído

fazendo-me viva, ardente, apaixonada.

Meu soneto de amor é peregrino.

Tramita amiúde no balouçar do vento

E retorna intacto, solene, companheiro,

após pousar uma gota de orvalho,

em cada suave fronte, ainda adormecente.

terça-feira, 18 de março de 2008

Lava Incandescente

Se todo poema é tradução
do amor, do riso, da oração
o não poetar é quase um confronto
entre a loucura e a razão.

Se todo amor é traduzido
em gestos, olhares, sorrisos
não amar é um conflito
entre o inferno e o paraíso.

Se todo gesto é carinho
em uma razão quase ausente
amar é a loucura mais doce
que desgoverna a alma da gente.

Extraio da vida o seu sumo.
Sigo em frente, busco o rumo.
Amo, rio, choro, enlouqueço.
Aquieto. Descanso. Recomeço.

Insisto
Persisto
Cambaleio.
Finjo-me de verde
Viro mata
densa, misteriosa, consistente.
Mas na verdade
sou um vulcão em erupção
sou uma lava incandescente.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Feitiço


Respirei teu cio

Amordacei teus arrepios

Deite-me pálida!

Arranhei teus desejos

Aqueci-te sem pejos

Deixei-te em brasa

Guardei-te indômito

Preenchi-me do teu calor

Tornei-me lava.

Silenciei teu signo

Arranquei teus espinhos

Sagrei-me fada.

Bebi teus líquidos

Quebrei as taças

Tornei-me saga!

sábado, 8 de março de 2008

Criado(a) Oculto(a)

A você, anônimo(a) que há meses me persegue.

Há uma noite estranha lá fora.

Nenhuma Lua, nenhuma estrela.

Céu de escuridão infinita.

Uma noite assim deveria servir para a face anônima.

Creio até que é a foto explícita de quem se esconde.

Qual seria o medo de quem se esconde?

Medo ou tara?

Qual seria o seu complexo?

O seu grau de inferioridade?

Inferioridade ou covardia?

Não aceito um ser vazio de espiritualidade.

Os covardes são.

Quem não se mostra não se revela não se gosta.

Sente-se verme.

Não seria a hora de sair do anonimato e se mostrar?

Rastejar não é humano.

Tenho desprezo pelo fel que vomita e pelo veneno que destila.

O seu antídoto seria menos doloroso, se vestisse a hombridade.

Tenta! Mostra a cara! Identifique-se!

Busque sair desse mundinho restrito e infeliz.

E encontre-se ou se mate!

quinta-feira, 6 de março de 2008

Silogismo

Se eu pudesse levar-te-ia
numa viagem sem itinerário
por terras longínquas e naturais
para amar-te além dos umbrais.

Ah, se eu pudesse ter-te
sempre sem horário
em quebras de silêncio
em afagos demorados.

Quisera eu ter-te fremente
entre urgências
(passional e esfomeado)
Ah, quisera eu saciar-te.

Fica atento que a noite surge.
Ouve o mar que de longe ruge.

Pudesse eu dar-te-ia as ondas
que de mim emergem
para juntar ao teu oceano
que bem sei, profundo.

sábado, 1 de março de 2008

Entre a Pluma e Lua



Amei-te, sim. Até mais que a mim mesma
Deixei meus sonhos para sonhar os teus
Enxergava-te um céu repleto de estrelas
Assim, tornei-me Lua para fazer-te meu.

Solitária, acompanhei teus passos
organizando nuvens, escondendo o clarão
Enquanto dia, foste alado, pluma
Anoitecia, tornavas um dragão

E fui esvaindo sombra ao invés de brilho
já que não vias nem as minhas mutações
Eu só minguava, nem mais reluzia
Crescente mágoa no meu coração.

Deixei-te assim, proprietário dos teus sonhos
Não mais celeste, não mais senhor
Recuperei meus sonhos e os doei à Lua
Voltei a ser a mulher que sou...

Elipse


Na pele
da pele
Entre
entremeios,
amor,
calor,
ação.
Coração
pulsa,
descompassa.
Tátil.
Fácil
emoção.
Na pele, dentre a pele
ligas.
Conexões.
Na pele, o
sim e o
não.
Apatia?
Loucuras?
Livre imaginação

Paixão


E como o tempo não nega,
não desmente, não encoberta,
e toda a luz que emana
vem da pele que inflama,
há que se ter poesia
no nosso amor que é chama!

Refém da luminosidade

Quando a nuvem passa em novelos

seguindo sua trajetória

me junto a ela e aporto em teu mundo.

Abra teus braços

e serás meu universo.

Acompanho teus movimentos

sempre poéticos.

Encosto-me em tua pele

Eu, como brisa, roço teus lábios

e neles deixo apenas um verso:

"A noite é arteira

e eu, fogueira".

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Melodia Intemporal


Dedilho as cordas do violão.
Elas me darão o tom perfeito
ao grito engasgado dos meus desejos.

Acordes sonoros
brincam de duetos
nos sustenidos dos meus anseios.

Si, lá, sol, fá.
Nos avessos da pauta
cantarolo as notas musicais e seus reversos.

Dó, ré, mi.
Entôo minha emoção e expando
meu canto de amor em puros versos.

E a música, livre, rasga o silêncio.
Minha voz, firme e rouca,
decanta o amor no seu universo.

Abaixo o tom, encontro o ritmo.
As claves fundem-se ao infinito.
E a música perdura além do momento.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

À espreita


estou esperando um grande acontecimento
algo que me leve às nuvens
Faça-me sentir frio e calor
que seque as minhas palavras
e engasgue as minhas lágrimas
espero por algo que me faça correr
e correndo até o objetivo
encontre a noite envolta no dia
e o dia rasgue os ponteiros
e pare o tempo
porque o tempo abriga a tribo
e eu não quero tribo
quero apenas um grande acontecimento
um que me faça levitar
no espaço
como ave migradora
e de lá mirar o paço
onde tremula a bandeira
com uma única palavra impressa
e que essa palavra
seja, somente, AMOR.

Mensagem ao Vento


Cante-me à manhã ensolarada entre
gorjeios de pássaros, dança de falenas
murmúrios de asas, flores de açucena

Cante-me à tarde embalada em rede
murmúrios da fonte, carícias serenas
gotas à pele exalando dracena

Cante-me à noite em lençóis macios
beijos ardentes em fome premente
sacie meu corpo apaixonadamente!

Cante-me ao Sol, à Lua, às estrelas
Cante-me às águas com todas vertentes
Cante-me o amor, oh! Senhor dos Ventos!

Todas as Luas





Branca, silenciosa e nua
a Lua – feiticeira da noite -
salpica de prata a solitária rua!

Apaixonada, enfeitiçada e nua
eu - invasora da noite -
alio meu corpo ao clarão da Lua...

Unas, totalmente nuas,
por toda noite,
lambemos tua pele, com paixão e fúria!

Por toda noite.
Todas Luas.
Todas. Unas.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Bastidores


Não. Não vou sentar à tua sombra para ouvir soluços
Quem muito chora nem sente a própria lágrima
Não percebe a mudez de um olhar obscuro
Nem desfaz o choro por não saber a hora.

Há algo estranho no exagero em querer
Sonhos invadem, vivem, às vezes, mudam
Trocam de órbita, de ritmo, de postura
às vezes morrem ao nascer da aurora.

Não. A noite é escura e a Lua, cúmplice
Em cada estrela há um piscar dolente
Se me ativer a este rogo inútil
nem viro orvalho e nem madrugo

Então me escuta. Guarda este lamento
para a derradeira hora. A verdade galopeia
e muito. Reserva tuas águas para a imensa vaia.
Já que a platéia em surdina, goza.

Catagênese


Abrirei a porta
e dividirei a fuligem. E só.
Ao abri-la
verei tudo o que já sei:
um soslaio inseguro do olhar
uma reprimenda muda de ecos.
Sem ofensa, mudarei o cenário.
Deixarei a fuligem grudada:
não há absoluta intenção
de revolver o passado.
Ela, por si só já é patrimônio.
A trinca já se plasmou
de forma serena e absoluta:
um traçado regular mas, seco.
Uma trajetória de fios
desconectados mas, informadores.
Omega é o ponto.
Então tratarei dos poemas dos mortos
e das flores semitortas.
Nas superfícies lodosas
não farei o risco e nem jogarei na sorte
porque o azar é um intuitivo
usurpador consorte.
E eu, experiente, carteando
reis, valetes e ases
não desejo aparte.
Apenas que o show
não termine em morte.

Camaleão



Busquei em ti a minha essência
A ti, doei a minha lucidez
Em me doando, perdi-me no contexto
da obra-prima que a ti, eu dediquei.

Fiz um esboço da tua personalidade
Em traços e sonhos que ainda nem sonhei
Mil cores, mil formas, mil texturas
Alguns traços, infelizmente, eu errei.

Troquei de papel, de madeira, de tela
De giz a pena, quase tudo usei
Até buril, já que o esboço em pedra
conteria “in loco” todo o amor meu.

E as mutações foram acontecendo
De cor em cor, de forma em forma, num vai e vem
Esculpi, pintei, entalhei, desmanchei. Refiz. Enfim surges!
Camaleão tu és, na tela que pintei!

Alcova




É muito simples
Basta que feche os olhos
Assim, como eu faço

E sentirá escorrendo
pela tua pele
a urgência do ter

Afagos, toques, línguas
Imagine apenas.
O instante é de saber

Ouça ruídos ao longe
águas borbulhando
entre os mistérios

Crie momentos etéreos
Volúpias brotando dos poros
Sal, açúcar, querer

E lambuze a tua alma
na pele que te enlouquece
lisa, macia, ardente.

Em seguida abra os olhos
Alcova, amantes amados
Não é sonho, é querer...

Além do Arco-Íris


Que cor teria sua voz?
Vermelha e quente?
A minha voz é matiz.
Assim como a vida
fica entre o lá e o si.
É cantante quando meus olhos
do nada, do quase nada
vêem um colibri.
Sua voz é das montanhas?
Esparrama sonora
pelos vales, pelas encostas?
Ou seria sussurrante
como o vento
que entremeia suave
em meus cabelos?
Que cor teria sua voz
ao receber um carinho,
um beijo de língua,
um afago mais íntimo?
Teria a cor do gris?
Entre o preto e o branco
seria uma voz tão
vibrante quanto
dó, ré, mi?
Daqui, a ouço
numa insensatez de louca..
Arco-íris de suaves gotas
respingando fortuitamente
no meu patético ouvir.

Viajando em águas


Barco sem muito destino
pele sob o sol a pino
desejo de aportar

Antevejo o farol sem brumas
Gaivotas sobrevoando escunas
dançam sua pesca no mar

Conchas cravadas na areia
chamam-me de sereia
encanto prá me despertar

Recebo do vento marinho
um leve aroma de vinho
feitiço prá me embriagar

lanço âncoras e mergulho
acoplo-me às águas tão fundo,
que viro estrela-do-mar.

Ao emergir

Sinto um olhar atento, cálido, sensível
e no meu esforço ao renascimento
primeiro a luz, depois o firmamento.
De raízes profundas e tênue folhagem
não sou um sonho, nem miragem. O suor
que de mim brota, como gota escaldante
busca o etéreo saber efervescente.
E nas asas do vento, vôo ao infinito...
Como semente cuspida, em busca
de solo árido, suga-me o beija-flor.
Enquanto flor adocicada, sou alimento
de pássaros que bailam ao meu redor.
Como folha esmaecida,
sou o canto nos pés do lenhador
e a quebra do silêncio, na mata toda em flor.
Ao emergir do solo,
ao ser lançada pelas águas,
não me contém o tempo.
Não me detenho a nada.
Viro a lava de um vulcão,
viro a calmaria da mata
Se emerso de teus sentidos
torno-me a mais linda cascata.
E busco o teu olhar sensível
seguindo o curso do rio...
Encontro-o navegante,
ondulante, encrespado
beijando as ondas na praia.

Elipse


Na pele
da pele
Entre
entremeios,
amor,
calor,
ação.
Coração
pulsa,
descompassa.
Tátil.
Fácil
emoção.
Na pele, dentre a pele
ligas.
Conexões.
Na pele, o
sim e o
não.
Apatia?
Loucuras?
Livre imaginação

Céu e Inferno

Não te amo como se fosse mel
que açucarou com o tempo.
Amo-te como se fosse o néctar
que a flor produziu para meu deleite.

Tu me proteges como a copa
de um Ipê florido e frondoso.
Amo-te porque me cobres
permitindo-me sentir a terra, o sol e o vento.

Não te amo como o rio
que apressado juntou-se ao mar.
Amo-te como um regaço manso
que a terra vai alimentar.

Amo-te sem saber como.
Amo-te sem ter o porquê.
Só sei que te amo como amo
assim sem pudor, sem receio,
porque és meu suor, minha dor,
minha alegria, meu calor,
minha calma e meu tormento.

Transfusão


Quero me livrar deste amor antigo,
tão antigo que nem sei se existiu
Seria o primeiro ou quem sabe o último?
Amor que nem uma página preencheu...

Desejo que ele se vá com as ondas
do mar raivoso, ao encontro das muralhas.
Não me trouxe plenitude, muito menos sossego,
nem tampouco vitórias nas minhas batalhas.

É tão antigo que amarelou meu sangue
esvaindo o viço de um tempo esplendoroso.
Amor bandido, solitário, exangue
no grito mudo do meu olhar aquoso.

É preciso me livrar para que o novo chegue
e me abarque inteira sem nenhuma apreensão
Torne-me cúmplice, amante, companheira
e remoce o sangue no meu coração.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

O que me flutua


Não é assim tão tarde.
As roseiras já confabulam,
os espinhos esperam o alarde,
e as gotas de orvalho murmuram.
Não é tanto pela sombra
que na orelha ostento um só brinco.
"Por que uma?"
Respondo a seguir: "Aguarde".
Não me vejo em duplas distintas
Sou o meio do lado esquerdo
e o avesso do dente canino.
Pulsando, trituro e engulo.
No lado direito sou honra
assumo, assino, cumpro.
Centrando, aqueço desejo
acolho, desfaço, concluo.
Horizontalmente sou vertical
não me permito nódoa mental
saio à luta, carrego bandeiras
ensabôo, lavo, enxugo.
Ouço sons paralelos à noite
danço-os em suaves baladas
enluaro o céu de minha boca
transpiro só madrugada.
"Por que só uma?"
Porque uma e tão somente uma
é a face que me modela.
Nessa imagem do espelho
que reflete a minha íris
leio minha própria pauta.
No rascunho da minha vida
rabisco minha própria arte.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Portão de Embarque


Fico a buscar estrelas

em raios de sol.

E nessa brincadeira

de esconde-esconde,

eu te amo, meu amor!

Nem pense em duvidar.

Amor, e agora?

Oh! religião universal

essa do muito amar...

Fico a testar conexões:

- azul com azul

- vermelho com vermelho

Preto no branco.

Ultrapassei o código?

O que diria do tom?

Claro ou escuro?

- Aceso, meu amor.

Luzes e mais luzes

que o cristal é líquido.

E a luminosidade

que emana das pontas

dos cabelos, é fugaz.

Traz tuas lenhas.

(fogueira apta a crepitar)

Assim, como amam os loucos.




Saberia te amar como amam os loucos.
Teria rompantes como os têm os tolos.
Beijaria a trilha para suavizar caminhos
Buscaria a Lua para enfeitar teu sonho.

Saberia te decantar como se fosse um poema
Com todas as nuances de uma escrita fina
Ao invadir teus lábios com meus beijos quentes
Grudaria tua saliva a minha eterna euforia.

Saberia te amar como amam os loucos
E nesse meu amor que nunca foi pouco
Tatuar-te-ia versos com meu olhar líquido
Represando meu desejo por todo teu corpo.

E enquanto não te encontro nessa neblina
Trilho vias tortuosas da esperança
E me descubro refém de enganos
Já que te amar sempre foi insano.


Esta poesia é do ano de 1998.
Como não datei nem o dia e nem o mês
não poderia afirmar, com certeza,
se ela já completou 10 anos.
Uma vida.
E neste meu olhar líquido,
por essa trilha de esperança,
sempre muito e sempre insano,
meu amor, antes represa,
tornou-se um profundo oceano.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Diário de uma borboleta


Seria cômico se não fosse trágico
Em cada Lua há uma promessa
e a vida traça a reta
enquanto eu entorto (sem rimas por favor, afinal borboleta não é poeta...)

As minhas cores agora voltam
já lilaso o vôo
libertas quae sera tamen

Sobrevivi
Sofri não.
Apenas me enchi.

Suspiros caíam ao chão
aquela coisa deliciosa de tornar o caminhar doce...
quantas investidas e quantos nãos?
uma fartura

amanhã é hoje
não foi tão difícil assim
afinal as flores vieram do nada
e o meu jardim adora um tango

voilá...

vou carimbar o passaporte
tenho um rumo
tenho um norte

abram, asas!
quero voar.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Chova-me!


Vem em mim como se tu fosses chuva

Eu, terra febril, acolherei tuas águas

Vem e sacia minha sede insana

Que exalando cio te serei profana.


Beija a minha boca até escorrer enzimas

Desfaz-me em afagos alternando climas.

Que te serei o fogo, a chama mais legítima,

Desse desejo primitivo que de mim emana.


Reinventa o espaço entre o ontem e o amanhã.

Deita-te em meu solo, serei teu talismã.

Preenche meus veios, faz ousadias.

Água-te em mim com toda sintonia.


E quando tuas nuvens sentirem-se libertas

E eu, fecunda, sentir-me extasiada

Outona-te para outro ciclo que estarei à espera.

Ardente, pulsante, sedenta e encantada.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Tu e Eu* - Paráfrase


Ando quebrando fronteiras

Desfazendo linhas

Modificando o vento

Enquanto tu reverberas

Luminosidades

Apagando traços do tempo

Eu,demonista

Tu,xaua


Dou-te meu colo em abrigo

Alivio tuas dores romeiras

Com beijos alivio teu fardo

E tu combatendo as feras

Quebra as seitas homéricas

Redesenhando a mandala

Eu,caína

Tu,fão


Sorrio as vias tortuosas

Extraio perfume de pedras

Exalto a vida que é bela

Enquanto tu esmurras

A ponta do teu iceberg

Bebendo o sangue in natura

Eu,crasia

Tu,telado


E assim vivemos à parte

Eu, tateando a visão

Tinjo de cores as sombras

Tu, gesticulando a boca

Digeres teu aprendizado

Somos em cada encontro

Eu,biótica

Tu,rrão


E o que poderia ser fábula

É tão somente mania

Tu e eu somos um caso

Avesso à psiquiatria.


* a partir do poema de Luiz Fernando Veríssimo

com o mesmo título.