quinta-feira, 12 de junho de 2008

De uma Pessoa à Outra


Alguns sentimentos são marginais.
Montam-nos e nos desmontam sem autorização.
Criam conceitos e os desfazem.
Antítese do amor e ódio.
Mascam nossas verdades,
transportam-nos para um labirinto
e lá nos esquecem.
A felicidade serve como elucidação.
O que é ser feliz?
Seria ter o tátil nos olhos?
Ou, quem sabe, ter audição nos lábios?
Existem tantas almas cegas.
Tantas bocas que nada dizem...
E, no entanto, olhos imploram.
Muitos olhos imploram.
Onde ficam nossos sentimentos puros?
Ficam enclausurados pelos sentimentos marginais.
Tornamo-nos reféns deles.
Somos a mentira insana.
A verdade capenga.
A ilusão falsa.
Marginalizamo-nos a cada golpe certeiro.
Tornamo-nos defeituosos de sentimentos.
Não gostaria de rir até as lágrimas para voltar
a ter fé no próximo?
Eu gostaria. Sei que também gostaria.
Mas, lá, onde o próximo se corrompeu,
também o fez sádico.
Não há risada suficiente que o retorne à pureza.
Não há mais pureza.
Nem minha, nem sua, nem de ninguém.
De minha pessoa para sua pessoa:
- O que fizemos de nossos sentimentos?
ou
- O que fizeram aos nossos sentimentos?

Pela Borda da Taça



Anoitece.
O outono inverna.
As estrelas sentem frio.

Ruas cansadas
De passos exaustos.
Portas abrem com ruídos.

Chinelos arrastam.
Mãos fadigadas.
Corpos buscando abrigo.

Anoitece.
Lá, onde o agito perdura,
Bocas sorriem de tudo.

Embalada pela balada
Sonho sonhos vagabundos.
Escorre-me pelos lábios

Vinho sabor mundo...
Principia junho.
Na garganta, sem lamento,

Canto a canção do vento.

Pelos Olhos Meus





Nesse dia não choveu.
Não fez calor.
Apesar da estação se denominar verão.
E de todos os sorrisos serem praianos e ensolarados.
Não havia um vento sequer.
As folhas de todas as plantas estavam imóveis.
Atentas.
Nesse dia o Sol não sumiu no horário de costume.
E no horário de costume a Lua surgiu.
E bendisse o dia tão atípico.
E reverenciou toda estrela que reluzia sem por que.
A meia noite o mar adormeceu.
E sonhou todos os sonhos que ninguém ousou sonhar.
Embalado em suas águas pelo Sol e pela Lua,
num solstício inigualável pela ousadia,
o mar amou além das profundezas.
E arrebentou suas ondas suavemente
até despertar, prateado e reluzente,
nas lágrimas que escorriam dos olhos meus.

Ela e Eu


Ela e eu. Ambas caladas.
Encaramo-nos como se o estranhamento fosse necessário.
Mas, não era. E ela sabia.
E, no entanto, apesar das minhas tentativas de aproximação,
ela continuava branca, alinhada, fazendo-se de difícil.
Passei a ignorá-la.
Fiz uma busca, minuciosa, em minha estante.
Qualquer livro serviria para tirar-me o desejo de tê-la sob controle.
Optei pela Gramática. Não me canso de querer aprender.
Os quês, os porquês, os tais, os quantos. Ora, nossa língua é fascinante.
Mas, apesar de só ouvir o som das folhas que folheava, de tempo em tempo, arriscava um olhar em sua direção.
Será que me diria alguma palavra?
De repente, resolvi avançar.
Juntei-a em minhas mãos e dei-lhe uma bela amassada.
Foi o suficiente. A folha de papel virou uma bola.
E, apesar de,
acolheu-me.
Deixou que eu lhe rabiscasse o amor, permitiu-se a interinidade.
Timidamente, ressurge como inspiração.
Amassada, desalinhada. Mas, pura.
Já era hora. Bem-vinda seja!