segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

À espreita


estou esperando um grande acontecimento
algo que me leve às nuvens
Faça-me sentir frio e calor
que seque as minhas palavras
e engasgue as minhas lágrimas
espero por algo que me faça correr
e correndo até o objetivo
encontre a noite envolta no dia
e o dia rasgue os ponteiros
e pare o tempo
porque o tempo abriga a tribo
e eu não quero tribo
quero apenas um grande acontecimento
um que me faça levitar
no espaço
como ave migradora
e de lá mirar o paço
onde tremula a bandeira
com uma única palavra impressa
e que essa palavra
seja, somente, AMOR.

Mensagem ao Vento


Cante-me à manhã ensolarada entre
gorjeios de pássaros, dança de falenas
murmúrios de asas, flores de açucena

Cante-me à tarde embalada em rede
murmúrios da fonte, carícias serenas
gotas à pele exalando dracena

Cante-me à noite em lençóis macios
beijos ardentes em fome premente
sacie meu corpo apaixonadamente!

Cante-me ao Sol, à Lua, às estrelas
Cante-me às águas com todas vertentes
Cante-me o amor, oh! Senhor dos Ventos!

Todas as Luas





Branca, silenciosa e nua
a Lua – feiticeira da noite -
salpica de prata a solitária rua!

Apaixonada, enfeitiçada e nua
eu - invasora da noite -
alio meu corpo ao clarão da Lua...

Unas, totalmente nuas,
por toda noite,
lambemos tua pele, com paixão e fúria!

Por toda noite.
Todas Luas.
Todas. Unas.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Bastidores


Não. Não vou sentar à tua sombra para ouvir soluços
Quem muito chora nem sente a própria lágrima
Não percebe a mudez de um olhar obscuro
Nem desfaz o choro por não saber a hora.

Há algo estranho no exagero em querer
Sonhos invadem, vivem, às vezes, mudam
Trocam de órbita, de ritmo, de postura
às vezes morrem ao nascer da aurora.

Não. A noite é escura e a Lua, cúmplice
Em cada estrela há um piscar dolente
Se me ativer a este rogo inútil
nem viro orvalho e nem madrugo

Então me escuta. Guarda este lamento
para a derradeira hora. A verdade galopeia
e muito. Reserva tuas águas para a imensa vaia.
Já que a platéia em surdina, goza.

Catagênese


Abrirei a porta
e dividirei a fuligem. E só.
Ao abri-la
verei tudo o que já sei:
um soslaio inseguro do olhar
uma reprimenda muda de ecos.
Sem ofensa, mudarei o cenário.
Deixarei a fuligem grudada:
não há absoluta intenção
de revolver o passado.
Ela, por si só já é patrimônio.
A trinca já se plasmou
de forma serena e absoluta:
um traçado regular mas, seco.
Uma trajetória de fios
desconectados mas, informadores.
Omega é o ponto.
Então tratarei dos poemas dos mortos
e das flores semitortas.
Nas superfícies lodosas
não farei o risco e nem jogarei na sorte
porque o azar é um intuitivo
usurpador consorte.
E eu, experiente, carteando
reis, valetes e ases
não desejo aparte.
Apenas que o show
não termine em morte.

Camaleão



Busquei em ti a minha essência
A ti, doei a minha lucidez
Em me doando, perdi-me no contexto
da obra-prima que a ti, eu dediquei.

Fiz um esboço da tua personalidade
Em traços e sonhos que ainda nem sonhei
Mil cores, mil formas, mil texturas
Alguns traços, infelizmente, eu errei.

Troquei de papel, de madeira, de tela
De giz a pena, quase tudo usei
Até buril, já que o esboço em pedra
conteria “in loco” todo o amor meu.

E as mutações foram acontecendo
De cor em cor, de forma em forma, num vai e vem
Esculpi, pintei, entalhei, desmanchei. Refiz. Enfim surges!
Camaleão tu és, na tela que pintei!

Alcova




É muito simples
Basta que feche os olhos
Assim, como eu faço

E sentirá escorrendo
pela tua pele
a urgência do ter

Afagos, toques, línguas
Imagine apenas.
O instante é de saber

Ouça ruídos ao longe
águas borbulhando
entre os mistérios

Crie momentos etéreos
Volúpias brotando dos poros
Sal, açúcar, querer

E lambuze a tua alma
na pele que te enlouquece
lisa, macia, ardente.

Em seguida abra os olhos
Alcova, amantes amados
Não é sonho, é querer...

Além do Arco-Íris


Que cor teria sua voz?
Vermelha e quente?
A minha voz é matiz.
Assim como a vida
fica entre o lá e o si.
É cantante quando meus olhos
do nada, do quase nada
vêem um colibri.
Sua voz é das montanhas?
Esparrama sonora
pelos vales, pelas encostas?
Ou seria sussurrante
como o vento
que entremeia suave
em meus cabelos?
Que cor teria sua voz
ao receber um carinho,
um beijo de língua,
um afago mais íntimo?
Teria a cor do gris?
Entre o preto e o branco
seria uma voz tão
vibrante quanto
dó, ré, mi?
Daqui, a ouço
numa insensatez de louca..
Arco-íris de suaves gotas
respingando fortuitamente
no meu patético ouvir.

Viajando em águas


Barco sem muito destino
pele sob o sol a pino
desejo de aportar

Antevejo o farol sem brumas
Gaivotas sobrevoando escunas
dançam sua pesca no mar

Conchas cravadas na areia
chamam-me de sereia
encanto prá me despertar

Recebo do vento marinho
um leve aroma de vinho
feitiço prá me embriagar

lanço âncoras e mergulho
acoplo-me às águas tão fundo,
que viro estrela-do-mar.

Ao emergir

Sinto um olhar atento, cálido, sensível
e no meu esforço ao renascimento
primeiro a luz, depois o firmamento.
De raízes profundas e tênue folhagem
não sou um sonho, nem miragem. O suor
que de mim brota, como gota escaldante
busca o etéreo saber efervescente.
E nas asas do vento, vôo ao infinito...
Como semente cuspida, em busca
de solo árido, suga-me o beija-flor.
Enquanto flor adocicada, sou alimento
de pássaros que bailam ao meu redor.
Como folha esmaecida,
sou o canto nos pés do lenhador
e a quebra do silêncio, na mata toda em flor.
Ao emergir do solo,
ao ser lançada pelas águas,
não me contém o tempo.
Não me detenho a nada.
Viro a lava de um vulcão,
viro a calmaria da mata
Se emerso de teus sentidos
torno-me a mais linda cascata.
E busco o teu olhar sensível
seguindo o curso do rio...
Encontro-o navegante,
ondulante, encrespado
beijando as ondas na praia.

Elipse


Na pele
da pele
Entre
entremeios,
amor,
calor,
ação.
Coração
pulsa,
descompassa.
Tátil.
Fácil
emoção.
Na pele, dentre a pele
ligas.
Conexões.
Na pele, o
sim e o
não.
Apatia?
Loucuras?
Livre imaginação

Céu e Inferno

Não te amo como se fosse mel
que açucarou com o tempo.
Amo-te como se fosse o néctar
que a flor produziu para meu deleite.

Tu me proteges como a copa
de um Ipê florido e frondoso.
Amo-te porque me cobres
permitindo-me sentir a terra, o sol e o vento.

Não te amo como o rio
que apressado juntou-se ao mar.
Amo-te como um regaço manso
que a terra vai alimentar.

Amo-te sem saber como.
Amo-te sem ter o porquê.
Só sei que te amo como amo
assim sem pudor, sem receio,
porque és meu suor, minha dor,
minha alegria, meu calor,
minha calma e meu tormento.

Transfusão


Quero me livrar deste amor antigo,
tão antigo que nem sei se existiu
Seria o primeiro ou quem sabe o último?
Amor que nem uma página preencheu...

Desejo que ele se vá com as ondas
do mar raivoso, ao encontro das muralhas.
Não me trouxe plenitude, muito menos sossego,
nem tampouco vitórias nas minhas batalhas.

É tão antigo que amarelou meu sangue
esvaindo o viço de um tempo esplendoroso.
Amor bandido, solitário, exangue
no grito mudo do meu olhar aquoso.

É preciso me livrar para que o novo chegue
e me abarque inteira sem nenhuma apreensão
Torne-me cúmplice, amante, companheira
e remoce o sangue no meu coração.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

O que me flutua


Não é assim tão tarde.
As roseiras já confabulam,
os espinhos esperam o alarde,
e as gotas de orvalho murmuram.
Não é tanto pela sombra
que na orelha ostento um só brinco.
"Por que uma?"
Respondo a seguir: "Aguarde".
Não me vejo em duplas distintas
Sou o meio do lado esquerdo
e o avesso do dente canino.
Pulsando, trituro e engulo.
No lado direito sou honra
assumo, assino, cumpro.
Centrando, aqueço desejo
acolho, desfaço, concluo.
Horizontalmente sou vertical
não me permito nódoa mental
saio à luta, carrego bandeiras
ensabôo, lavo, enxugo.
Ouço sons paralelos à noite
danço-os em suaves baladas
enluaro o céu de minha boca
transpiro só madrugada.
"Por que só uma?"
Porque uma e tão somente uma
é a face que me modela.
Nessa imagem do espelho
que reflete a minha íris
leio minha própria pauta.
No rascunho da minha vida
rabisco minha própria arte.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Portão de Embarque


Fico a buscar estrelas

em raios de sol.

E nessa brincadeira

de esconde-esconde,

eu te amo, meu amor!

Nem pense em duvidar.

Amor, e agora?

Oh! religião universal

essa do muito amar...

Fico a testar conexões:

- azul com azul

- vermelho com vermelho

Preto no branco.

Ultrapassei o código?

O que diria do tom?

Claro ou escuro?

- Aceso, meu amor.

Luzes e mais luzes

que o cristal é líquido.

E a luminosidade

que emana das pontas

dos cabelos, é fugaz.

Traz tuas lenhas.

(fogueira apta a crepitar)

Assim, como amam os loucos.




Saberia te amar como amam os loucos.
Teria rompantes como os têm os tolos.
Beijaria a trilha para suavizar caminhos
Buscaria a Lua para enfeitar teu sonho.

Saberia te decantar como se fosse um poema
Com todas as nuances de uma escrita fina
Ao invadir teus lábios com meus beijos quentes
Grudaria tua saliva a minha eterna euforia.

Saberia te amar como amam os loucos
E nesse meu amor que nunca foi pouco
Tatuar-te-ia versos com meu olhar líquido
Represando meu desejo por todo teu corpo.

E enquanto não te encontro nessa neblina
Trilho vias tortuosas da esperança
E me descubro refém de enganos
Já que te amar sempre foi insano.


Esta poesia é do ano de 1998.
Como não datei nem o dia e nem o mês
não poderia afirmar, com certeza,
se ela já completou 10 anos.
Uma vida.
E neste meu olhar líquido,
por essa trilha de esperança,
sempre muito e sempre insano,
meu amor, antes represa,
tornou-se um profundo oceano.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Diário de uma borboleta


Seria cômico se não fosse trágico
Em cada Lua há uma promessa
e a vida traça a reta
enquanto eu entorto (sem rimas por favor, afinal borboleta não é poeta...)

As minhas cores agora voltam
já lilaso o vôo
libertas quae sera tamen

Sobrevivi
Sofri não.
Apenas me enchi.

Suspiros caíam ao chão
aquela coisa deliciosa de tornar o caminhar doce...
quantas investidas e quantos nãos?
uma fartura

amanhã é hoje
não foi tão difícil assim
afinal as flores vieram do nada
e o meu jardim adora um tango

voilá...

vou carimbar o passaporte
tenho um rumo
tenho um norte

abram, asas!
quero voar.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Chova-me!


Vem em mim como se tu fosses chuva

Eu, terra febril, acolherei tuas águas

Vem e sacia minha sede insana

Que exalando cio te serei profana.


Beija a minha boca até escorrer enzimas

Desfaz-me em afagos alternando climas.

Que te serei o fogo, a chama mais legítima,

Desse desejo primitivo que de mim emana.


Reinventa o espaço entre o ontem e o amanhã.

Deita-te em meu solo, serei teu talismã.

Preenche meus veios, faz ousadias.

Água-te em mim com toda sintonia.


E quando tuas nuvens sentirem-se libertas

E eu, fecunda, sentir-me extasiada

Outona-te para outro ciclo que estarei à espera.

Ardente, pulsante, sedenta e encantada.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Tu e Eu* - Paráfrase


Ando quebrando fronteiras

Desfazendo linhas

Modificando o vento

Enquanto tu reverberas

Luminosidades

Apagando traços do tempo

Eu,demonista

Tu,xaua


Dou-te meu colo em abrigo

Alivio tuas dores romeiras

Com beijos alivio teu fardo

E tu combatendo as feras

Quebra as seitas homéricas

Redesenhando a mandala

Eu,caína

Tu,fão


Sorrio as vias tortuosas

Extraio perfume de pedras

Exalto a vida que é bela

Enquanto tu esmurras

A ponta do teu iceberg

Bebendo o sangue in natura

Eu,crasia

Tu,telado


E assim vivemos à parte

Eu, tateando a visão

Tinjo de cores as sombras

Tu, gesticulando a boca

Digeres teu aprendizado

Somos em cada encontro

Eu,biótica

Tu,rrão


E o que poderia ser fábula

É tão somente mania

Tu e eu somos um caso

Avesso à psiquiatria.


* a partir do poema de Luiz Fernando Veríssimo

com o mesmo título.

Treino


Dia

Decifras meus códigos

Dedilhas meus acordes

Entoas a poesia

Noite

Entrego-te meu orvalho

Aconchego-me em teu fado

Êxtase e harmonia.

Ritmo do Amor

Violão companheiro

que me dá o tom perfeito

à voz rouca do desejo.

Acordes sonoros

brincam de duetos

nos sustenidos dos meus anseios.

Si, lá, sol, fá.

nos avessos da pauta

danço as notas musicais nos reversos.

Dó, ré, mi.

Entôo minha emoção e expando

meu canto de amor em puros versos.

E a música, livre, rasga o silêncio.

Minha voz, firme e rouca,

decanta o amor no seu universo.

Abaixo o tom, encontro o ritmo

e as claves fundem-se no infinito.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Filha da Pauta

Nasci em sol maior.
Meus olhos expressam-se em claves.
Minhas dores, meus dissabores
sempre alcançam um tom acima do tom.
Seria eu um si bemol?
Ou quem sabe, um lá maior,
nos meus risos, nas minhas crenças
que me enfeitam como rendas
quando solfejo o amor?
Sou a filha da pauta
que, em busca do melhor tenor,
desafinou uma vez e
desafinou outra vez.
Necessito ser re-musicada.
Aguardo que um maestro
em seu afã musical
refaça minha partitura e
entoe-me com ternura.
Quem sabe ao me dedilhar
com notas doces e serenas
eu reaprenda a bailar...

Fantasiando






Lá fora não há Lua.

Apenas um céu sufocado de nuvens.

E um ou outro avião levando ou trazendo pessoas.

Algumas têm rumo. Outras, não. Suponho, apenas.

O que seria o rumo afinal?

Busca seria a palavra certa. Algumas buscam, outras não.

Nessa incessante procura sempre alguém se perde.

Alguém se acha.

Alguém se testa.

E não há Lua que deslize entre os dedos de um poeta.

Busco a minha. Quero uma noite de festa.

De guizos, de risos, de serestas.

Uma flor com um cartão.

Uma sincera declaração.

Um apaixonado João. Ou um José.

Alguém diferenciado

Cúmplice, solidário

Que me mostre, além da pele,

o reverso. Seria um começo.

Um quebra-nozes,

um vinho,

um diálogo baixinho

uma sinfonia de Verdi.

Lá fora a noite acontece.

Vôo em sonhos.

Além, muito além, da minha floresta.



Façanha

te trago

te pego

te faço

refaço

conduzo

me assanhas

nas entranhas

me ganhas

sem manha

na sanha

me arranhas

me faço

recebo

teu abraço

teu compasso

teu urro

teu sumo

meu consumo

resumo

em ti, me desfaço.

Eu, bailarina

Delicada, em sapatilhas desgastadas,

rodopiei num palco escuro

e sem aplausos

A cada passo, mais me invadia a música,

Leme, no meu imenso barco.

E fui acendendo pouco a pouco

as luzes brancas.

Preenchendo espaços

tão vazios de abraços.

Resgatando, entre acordes suaves,

o meu intenso mundo desfolhado.

E em sonata fui criando corpo,

levitando braços, rasgando espaços

Possuía um céu, cúmplice e estrelado

Derramei-o então, no palco solitário.

E entoei o canto do abraço

ao dançar a Lua, dentro dos seus braços.






Lua Nua

Quando a noite dorme

e as janelas apagam as luzes

pálidas que vazavam as cortinas,

meus pensamentos, que não têm direção,

buscam a luz da Lua.

E ficam extasiados com sua rota

regular sobre a minha cabeça.

Meu olhar já não a vê.

Apenas meus pensamentos a sentem.

Nua, branca, Lua.

Não soube avistar meu dia

nem meus desejos inconfessos,

porque enluarava outros pólos.

Saberia ela, agora, o que tateio em versos?

Saberia ela que a noite já sonha reversos?

É sempre assim quando a noite dorme:

um amassar de folhas,

um apagar de letras,

um despertar de instintos.

Quando a noite dorme

é que o beijo desenha o riso.

No silêncio, a melodia sem siso

dança na pele o improviso.

Eu, desperta pelos pensamentos,

viajo por dentro da noite.

Permito-me doces caminhos

em sonhos alados e incontidos:

deposito um beijo em tua fronte

acaricio tua alma

e retorno para o meu ninho.