domingo, 14 de setembro de 2008

Inteiro dentro de mim


Essas pétalas que te ofereço

com um leve aroma de primavera

saíram de entre as nuvens douradas

como aquela manhã de outra era.

Essa música que tu ouves agora

são acordes de uma lira às avessas

tangida num beijo inquieto

para que tu te estremeças.

Ouça! O vento é o adversário do tempo

Misto de água e paixão

segue livre entre fronteiras

te apruma ou te desalinha mas,

não silencia a cadência da tua pulsação.

Tu vives e eu também te reconheço:

no meu passo confiante pelo mundo,

na minha risada de pura alegria,

entre as linhas de uma poesia

e no latejar da minha emoção.

Dôra Leal

Insistência


A minha praia, se existe,
talvez fique adiante do meu deserto.
E uso todo meu fôlego,
para nadar nessa areia.
Minha pele está tatuada de Sol.
Doem-me as feridas, as novas e as antigas.
Sangram minhas cicatrizes.
Mas, pelo ar, pelo mar,
pelas montanhas e
até pelo deserto
- vivo porque existo -
E existir é latejar ferida.
Existir, é insistir no prisma
que o amanhã é amanhã mesmo.
E não o agora, que sei ser...

A ti


A ti sou o amor
Aquele que te conforta,
atrai
e adoça.
A ti sou a luz
Aquela que te guia,
indica
e ilumina.
A ti sou a força
Aquela que te enobrece,
movimenta
e enaltece.
Faça valer o meu sentimento
e me ame livremente.

Cúmplices


Ele:
Reclamou da vida.
Revoltou-se com os raios.
Disse que eram descargas de ódios.
Sujou o tapete.
Jogou meias sob a cama.
Assustou o cão.
Por dias e dias, sentou-se na mesma cadeira.
Não abriu a janela.
Estalou os nós dos dedos até a exaustão.
Ela:
Conversava com os pirilampos.
Não fechava uma porta.
Perfumava-se em excesso.
Flutuava para não pisotear formigas.
De repente, descobriu-o.
Ofegante, ofereceu-lhe um trovão.
Ele fez que não com a cabeça.
Tranquilamente, ela fechou a chuva.
Eles:
Alimentam-se, juntos, da solidão.

O Segredo da Borboleta


Era delicada e suave em seu vôo.
Buscava a essência in natura.
E em meio às flores
enamorou-se do cerne.
E alçou o infinito.
Diferentemente das outras,
tatuou o amor nas pétalas.
E a flor, extasiada,
perfumou a eternidade.

Enigma


Enquanto o vento canta lá fora, mostrando que tem ritmo e pulmão bons demais, descobri que depois de uma semana, o silêncio veio e se acomodou no sofá da sala.

Completamente sem inspiração poética, ando as voltas com a realidade.
Algum sorriso seria necessário para que os olhos vissem que nem tudo é amarelo. Muitas vezes cores demais também enjoam. Mas queria estar vomitando de tanto enjoar. Queria enjoar de ouvir barulho do mar, canto de pássaros e menos discussões vizinhas.
Mas, não tem mar, nem ouço pássaros e as discussões vizinhas, quer saber? Enchem minhas medidas.
Por acaso, existiria algum lugar onde as pessoas só discutissem por fax?
Vou dizer, seria um alívio, porque ouvir brigas diárias, ininterruptas, de segunda a segunda, não dá vontade de gritar? Mas, não grito. Um tom acima da minha voz me deixa rouca. Ora, ora, também não queria ser surda, o que seria uma solução.

E pensando em solução, a música, no momento, diz:
"O que será que me dá/que me bole por dentro/será que me dá/que brota à flor da pele/ será que me dá/..."

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Registro


Sentava nos pensamentos procurando registros
Quando, onde, por quê?
A cabeça no ritmo de quem assiste a uma partida de tênis
De um lado a outro nada se via
Mas havia o que ver
Apenas os registros estavam empilhados,
misturados, empoeirados
de uma forma que os acessos eram tediosos.
Quanta desordem à esquerda!
Quanta sujeira à direita!
Pálpebras pesadas nem percebiam
que o centro era a chave
Falta de mira, talvez.
De repente veio a dor
Sangrava o mundo à sua volta
Lenços, despedidas, porto, solidão.
Sempre do mesmo jeito
A maré que subia
A pedra que era engolida
A fonte que se contaminou
E o arrepio eriçou os pelos
trincando a pele que era um esboço
no arquivo que nunca morreu.
Sentada nos pensamentos.
Apenas o registro de quem não viveu...

d'Água


minha roupagem é como nascente
brota de um solo imaginário
rompe barreiras e conceitos
e deságua na correnteza

os caminhos por onde ela passa
contém flores, pedras, sementes
a roupagem então se desgasta,
mas nunca perde a essência.

ela não cobre a nudez da alma
nem submerge os sentimentos
não é tátil, não é visível, é só fantasia
e no entanto, enfrenta qualquer tormenta.

não é difícil imaginá-la
não segue modismos, nem é perene
cristaliza-se ao frio intenso
e fervilha quando está quente

minha roupagem é translúcida
com nuances de pureza e indecência
no entanto, é toda trançada
ao pudor e a decência.

ao escorrer em minhas faces
em lágrimas emotivas
desenha letrinhas na pele
desejando virar poesia.

é uma roupagem sem reino
sem súditos, sem pretensão
é d'água, é veio, é nascente
é a minha tradução.

Imprevisível?


Tum-tum-tum
Desfazem paredes
Criam portas
Descolam cerâmicas
Suam
Proseiam
Radinho na orelha em outro ritmo
Cimento, argamassa
Cadê o prato?
Não tem água?
A quentinha já chegou?
Ai, que quero dormir
Até
as 8, até as 9, até as 10
São 7hs
Nada de café
Nada de cozinha
Tudo de poeira
Cof-cof-cof
Nem ar tem mais.
Mas no caminho da roça
tem notícias.
É só varrer
e ler o País: corrupção, bandidagem
falta de solução.
Melhor não varrer.
Deixa que a poeira cubra
assim não se vê a pizza
nem guerrilhas, nem
promessas vãs.
Sem solução.
Caminho da roça
Pra lá, pra cá
Sentar onde?
Cof! Tum! Cof! Tum!
Toc-toc-toc
Tem campainha não?
Nem interfone?
Maravilha.
Sem comunicação,
Varre o jornal
E senta no chão
Notícia do dia anterior
(ou seria notícia de amanhã?)
Congresso de pizza, corrupção,
Guerrilhas, promessas vãs.
Continua sem solução.
Ei! Esqueceram?
Poeira aqui!!!!
Cof! Cof! Cof!
Socorro!!!!!!!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Notícias


Pela rádio das alterosas, entre montanhas verdes,
cheias de moscas esquisitas, vou noticiar-me (tanta audácia!).
Hoje eu fui mais de mil. Mil serviços não remunerados.
Então, não aposentarei tão cedo.
Não há nada de novo. Apenas a mesmice de sempre.
Aqui chove de hora marcada.
Eu durmo sem notificação.
Se fechar os olhos, até mesmo de frente ao micro,
caio em sono profundo.
Também venta de hora marcada.
Geralmente antes das chuvas.
Meus cabelos continuam os mesmos.
Finos, lisos demais, sem graça alguma.
Minhas gargalhadas não seguem horário.
Nenhum horário.
Até dormindo eu gargalho...
Ora veja, devo sonhar maravilhosamente bem!
Tenho feito todos os exercícios físicos que me recomendaram.
Faço-os mentalmente e me canso tanto que penso em parar.
Ora, eu lhe falei das flores que desabrocharam em meio às chuvas?
Pois é. Estão tão úmidas que talvez não agüentem nem o orvalho.
Vão melar...
Ah! Sabe o que eu descobri?
Descobri que sou insaciável.
É uma fome insuportável de tudo.
Do saber ao não saber.
Isto é, do que sei e do que não sei.
E como ainda tudo não sei,
talvez amanhã, quem sabe ?
Amanhã eu saberei.
E viva, por isto, a esperança...