sexta-feira, 25 de julho de 2008

Registro


Sentava nos pensamentos procurando registros
Quando, onde, por quê?
A cabeça no ritmo de quem assiste a uma partida de tênis
De um lado a outro nada se via
Mas havia o que ver
Apenas os registros estavam empilhados,
misturados, empoeirados
de uma forma que os acessos eram tediosos.
Quanta desordem à esquerda!
Quanta sujeira à direita!
Pálpebras pesadas nem percebiam
que o centro era a chave
Falta de mira, talvez.
De repente veio a dor
Sangrava o mundo à sua volta
Lenços, despedidas, porto, solidão.
Sempre do mesmo jeito
A maré que subia
A pedra que era engolida
A fonte que se contaminou
E o arrepio eriçou os pelos
trincando a pele que era um esboço
no arquivo que nunca morreu.
Sentada nos pensamentos.
Apenas o registro de quem não viveu...

d'Água


minha roupagem é como nascente
brota de um solo imaginário
rompe barreiras e conceitos
e deságua na correnteza

os caminhos por onde ela passa
contém flores, pedras, sementes
a roupagem então se desgasta,
mas nunca perde a essência.

ela não cobre a nudez da alma
nem submerge os sentimentos
não é tátil, não é visível, é só fantasia
e no entanto, enfrenta qualquer tormenta.

não é difícil imaginá-la
não segue modismos, nem é perene
cristaliza-se ao frio intenso
e fervilha quando está quente

minha roupagem é translúcida
com nuances de pureza e indecência
no entanto, é toda trançada
ao pudor e a decência.

ao escorrer em minhas faces
em lágrimas emotivas
desenha letrinhas na pele
desejando virar poesia.

é uma roupagem sem reino
sem súditos, sem pretensão
é d'água, é veio, é nascente
é a minha tradução.

Imprevisível?


Tum-tum-tum
Desfazem paredes
Criam portas
Descolam cerâmicas
Suam
Proseiam
Radinho na orelha em outro ritmo
Cimento, argamassa
Cadê o prato?
Não tem água?
A quentinha já chegou?
Ai, que quero dormir
Até
as 8, até as 9, até as 10
São 7hs
Nada de café
Nada de cozinha
Tudo de poeira
Cof-cof-cof
Nem ar tem mais.
Mas no caminho da roça
tem notícias.
É só varrer
e ler o País: corrupção, bandidagem
falta de solução.
Melhor não varrer.
Deixa que a poeira cubra
assim não se vê a pizza
nem guerrilhas, nem
promessas vãs.
Sem solução.
Caminho da roça
Pra lá, pra cá
Sentar onde?
Cof! Tum! Cof! Tum!
Toc-toc-toc
Tem campainha não?
Nem interfone?
Maravilha.
Sem comunicação,
Varre o jornal
E senta no chão
Notícia do dia anterior
(ou seria notícia de amanhã?)
Congresso de pizza, corrupção,
Guerrilhas, promessas vãs.
Continua sem solução.
Ei! Esqueceram?
Poeira aqui!!!!
Cof! Cof! Cof!
Socorro!!!!!!!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Notícias


Pela rádio das alterosas, entre montanhas verdes,
cheias de moscas esquisitas, vou noticiar-me (tanta audácia!).
Hoje eu fui mais de mil. Mil serviços não remunerados.
Então, não aposentarei tão cedo.
Não há nada de novo. Apenas a mesmice de sempre.
Aqui chove de hora marcada.
Eu durmo sem notificação.
Se fechar os olhos, até mesmo de frente ao micro,
caio em sono profundo.
Também venta de hora marcada.
Geralmente antes das chuvas.
Meus cabelos continuam os mesmos.
Finos, lisos demais, sem graça alguma.
Minhas gargalhadas não seguem horário.
Nenhum horário.
Até dormindo eu gargalho...
Ora veja, devo sonhar maravilhosamente bem!
Tenho feito todos os exercícios físicos que me recomendaram.
Faço-os mentalmente e me canso tanto que penso em parar.
Ora, eu lhe falei das flores que desabrocharam em meio às chuvas?
Pois é. Estão tão úmidas que talvez não agüentem nem o orvalho.
Vão melar...
Ah! Sabe o que eu descobri?
Descobri que sou insaciável.
É uma fome insuportável de tudo.
Do saber ao não saber.
Isto é, do que sei e do que não sei.
E como ainda tudo não sei,
talvez amanhã, quem sabe ?
Amanhã eu saberei.
E viva, por isto, a esperança...

Caixa de Pandora


Somos alguns.
E muitos, também são.
Eu não pertenço.
Vós sabeis.
Eles, sim. Mas, negam.
Somos a liberdade.
Alguns não, mas tentam.
Vós praticais.
Eu não omito.
Algumas vezes, permito.
Vós aprisionais.
Eles flutuam.
E os ais e os uis, ecoam
nas margens das linhas
que tortas, desenham
cosmos sob canais.
Alguns são somente um. Um único. Capa e contracapa.
Nesse confuso íntimo, pessoas vivem.
Arriscam-se abrindo a caixa.
E a Pandora mostra os dentes
ao triturar o que é demais.

Sobre Tudo


Vestia-se bem.
Algumas vezes ensolarado, aliás, muitas vezes...
Outras, sombrio.
Eu admirava a forma como aquele ser conseguia manter o olhar sempre infantil.
Como se o mundo fosse um atrativo jogo.
Pedras superpostas, águas submersas, cata-vento girando.
Cada caminhar significava um objetivo.
Sempre um objetivo.
E muitas vezes nem sapatos usava.
Para que os pés não deixassem rastros, usava asas.
Ágeis, coloridas, emplumadas.
Pés nus, braços abertos, mãos em defesa.
Do que se defendia? Era um mistério.
Um ser insaciável e sedento.
Secava todas as fontes.
Embebedava-se das estações.
Encharcava-se de emoções alheias.
Aprisionava o Sol nos olhos, no ventre, no coração.
Alimentava-se de tantos outros sóis.
Precisava disto.
Necessitava comer outra carne e beber do próprio sangue até a última gota.
Vampírica opção!
Não adiantou muito.
Sobre tudo, lá no canto, seu sobretudo tornou-se inútil.
Ficou enorme para aquele ser tão pequeno.
E o ser sabia disto.
Pendurou-o como o troféu da sobrevida.
E usou venda nos olhos para que o sobretudo, sobre tudo, não lhe desse um amargo rascante na boca a cada vez que o olhasse.
O ser passou. Tudo passa.
E o troféu, empoeirado, espera pelo ser primeiro, aquele que sobre tudo, encontrará a si mesmo.

Torta Torta



Vou olear a porta
Corta
No olhar a rota
Torta
Passo o óleo na rota
Torta
Na porta corto o olhar
Cota
Junto à rima na trilha
Tropeço
Na cota conto expresso
Sede
Café com leite aquece
Cedo
Tranco a tranca da porta
Anoitece
Acordo o olhar no tempo
Tento
A vida impressa na tela
Óleo
Olhar vergando implora
Abro a porta
Range a trinca
Rumo à rima
Torta torta - alimento
Alma rente - sente
Dilui
Óleo quente
Prensa mente
Bato a porta
Rumo à rua.
Rua torta esconde a porta.

Comigo mesma



Esquadrilhei a literatura
romântica e realista
sorvendo dramas, tragédias e poesias.
Fiz o caminho oposto
de viés, de retaguarda,
atrás dos vales, sobre pontes e
em longos precipícios.
Da semente à colheita
contei luas, marés,
pegadas e areias.
Nos desertos de ventos frios
e silêncios mutantes,
saciei minha sede
em cântaros elitizados.
Quanta incógnita!
Quanto questionamento!
As palavras eram opacas
e os tons adjetivos.
Eu era o enigma.
Desfiz-me, então,
em dunas baixas
e corredeiras espumantes.
A sabedoria não traz essa
felicidade publicada nos boletins.
É preciso mais que um salto mortal.
E um olhar atento
que acompanhe o sangue no fio da navalha.
A ideologia é francesa, mon amour.
Mas, o que sei do amor,
vem somente do meu eu tatuado, codificado, impresso.
O meu eu que crê, compartilha e persiste.
Nada há, entre a emoção e a razão,
que impeça a palavra de ser o reflexo da alma.
Sendo assim, meus escritos
são roupagens do meu avesso inusitado.

Admiração



Se eu posso olhar nos seus olhos
Sem perder meu equilíbrio,
Sem esconder o meu sorriso,
Sem ofuscar o seu brilho e
Sem criticar a sua personalidade,
Significa que admiro você.
Antes do sentimento amor
Existe o sentimento admiração.
Devemos cuidar para que não haja quebra.
Porque se houver,
Muitos outros sentimentos deixam de existir.
O respeito, o diálogo e principalmente, o amor conquistado.
Somos diferentes e sempre seremos diferentes.
Mas é nessa diferença que nos admiramos.
Façamos um pacto:
Cuidar da admiração.
Respeitar as diferenças.
Preservar o respeito sob qualquer circunstância.
E façamos outro pacto:
Ousar!
- Eu, Pessoa, ouso amar você, Criatura!
- Eu, Criatura, ouso amar você, Pessoa!
- E nessa ousadia tão cúmplice, tão plena, tão verdadeira,
ousaremos ser felizes!
- O amor é divino!
- Abençoados somos nós, que o temos!