terça-feira, 8 de abril de 2008

Casulo

Estou recém acordada.
Até quando?
Não sei.
Não sei de mais nada.
O despertar é algo que não explicamos.
E muitas vezes, sem aviso, ele acontece.
O inconsciente precisa realmente de estudos.
Sei que estudam. Sei que chegam a algumas conclusões.
Algumas, não todas.
Mas aonde vou me segurar enquanto concluem?
Sabia que as paredes não só escutam, como também se inclinam para ouvir melhor?
As minhas estão assim. Já quase como arcos.
Daqui uns dias poderei dizer que minha casa é um iglu.
Ou uma abóbada.
Estarei dentro de uma redoma. Preferiria uma redondilha.
Seria mais poético.
Estou sempre tentando deixá-la à vontade. A parede, é claro.
Dou-lhe presentes. Telas singelas. A seus pés deposito vasos floridos.
Retiro digitais que não lhe pertencem.
E ela ouve! Mas não fala! Queria que ela falasse...
Quando fica ereta, deixando de inclinar-se, sei que está em fase de recolhimento.
Ofereço meu apoio. Não jogo luz em cima.
Ela sofre de estresse tijolar. E como sofre!
Nessa fase, brindo-a com uma Sinfonia de Beethoven.
Fica calma, fica zen. Mas daí, quem pira sou eu.
Acontece uma fissura na minha homeostasia.
Sinto-me num imenso palco, repleto de olhos desconhecidos
buscando através da música, o sentido do viver.
Ah! que a insanidade me revela.
Sou eco, sou ruído, sou qualquer jugular.
E palpito, escorro, diluo-me.
Despertar dói.
Com um olhar de esguelha, fito-a.
E de onde estou, sem me aproximar, sussurro-lhe um carinho.
E ela fecha-se como abóbada somente para me escutar.
Não é lindo?

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Lenda

Fui além da lenda das montanhas

onde habitam as águias esfomeadas

Plantei a semente no úmido solo

e esperei por chuvas abençoadas

Além, muito além do entendimento,

abrasei raízes entre as rondas

e entoei melodias afinadas.

Beijei a boca da noite em suspiros

E em suspiros mordi o dia que raiava.

Gestei por milênios o destino

até vê-lo sucumbir por entre fráguas.

Fiz-me lenda impoluta e eterna

porque amei o amor como quimera

até fazê-lo mito em minhas eras.

À Flor da Pele

Vou conter meus arroubos.
Necessito flutuar no vácuo existente em mim
Esgotei-me buscando fórmulas. Não existem.
A química surge por si. Vem e delata a fragilidade.
Esmaga qualquer simbolismo. Faz-me vilã, faz-me vítima.
Uma pedinte quase sem fim.
Em vão persigo anseios. São como plumas, levitam ao sabor do vento.
Ou então grudam na pele. Ferem, sangram, partem-me ao meio.
Cravam as unhas. Tiram-me o fôlego.
Fazem-me fantoche. E nada.
Absorvem minha energia, meu eu lírico, minha fantasia. E nada.
À flor da pele, nervos expostos, mastigo a ira com chocolate.
Mas a alma não se arrefece. Incendeia a equação da genealogia.
No meu vácuo, o fogo crepita. Labaredas espalham meus instintos.
À flor da pele, sou chama. Mistura onírica. Desisto.
Não mais me contenho.
Bandeira hasteada, sigo o meu norte.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Gestalt


Meu soneto de amor ainda vagueia

nas intermináveis noites solitárias.

Não incomoda o sono do inocente

Não barulha sequer a madrugada.

Fica preso na garganta como um grito

E explode em arrepios imaginários.

Está sempre imerso em carícias doces

Em olhar atento, em segredos compartilhados.

Ele possui uma verdade nunca confessa

nem em cantigas assobiadas,

nem em linhas sempre pontilhadas.

Meu soneto de amor não é soturno

Possui entremeios, cheiros, cumplicidades.

E libera-se da minha mente sem nenhum ruído

fazendo-me viva, ardente, apaixonada.

Meu soneto de amor é peregrino.

Tramita amiúde no balouçar do vento

E retorna intacto, solene, companheiro,

após pousar uma gota de orvalho,

em cada suave fronte, ainda adormecente.